A desconfortável posição de questionar o monopólio de um único ponto de vista sempre fora um dos objetivos das terapias psicanalíticas. Não sem motivo: por crermos demais e tão somente numa simples e demasiada verdade, a nossa mesma e íntima, deixamos de nos aproximar do outro, tão cheio lá de suas outras verdades, díspares ao lado das nossas.
O movimento de aproximação, seja com a ajuda analítica, seja com a ajuda de um spot de luz artístico, termina por confrontar paradoxos e fazer-nos, não menos angustiados, mais abertos a outros vértices de interpretação.
O que os artistas Ângela e Homero relativizam – corroborando na arte o que cientistas o fazem na física quântica – é a nossa certeza.
Ora, será mesmo um beijo entre dois amantes? Mirem com cuidado, não haverá por trás dessa cena uma outra aludindo a mais leituras? Aqui anjos não ficam só com as vestes angelicais; um cachimbo pode ser mais que isso; uma seta fálica pode ver longe, uma mulher quem sabe? Aqui um homem em suspenso, em fuga? Ou um homem entre duas hipóteses? Nós mesmos oprimidos e temporários? Aqui uma interrogação de pé, uma exclamação deitada, abatida? A exclamação do irreal não se sustenta ou a dúvida do que enxergo está de saída, desistindo?
Vocês desistirão?
Caetano Oliveira
Médico Psiquiatra








