Sunday, January 14, 2007

É tudo verdade!

A desconfortável posição de questionar o monopólio de um único ponto de vista sempre fora um dos objetivos das terapias psicanalíticas. Não sem motivo: por crermos demais e tão somente numa simples e demasiada verdade, a nossa mesma e íntima, deixamos de nos aproximar do outro, tão cheio lá de suas outras verdades, díspares ao lado das nossas.
O movimento de aproximação, seja com a ajuda analítica, seja com a ajuda de um spot de luz artístico, termina por confrontar paradoxos e fazer-nos, não menos angustiados, mais abertos a outros vértices de interpretação.
O que os artistas Ângela e Homero relativizam – corroborando na arte o que cientistas o fazem na física quântica – é a nossa certeza.
Ora, será mesmo um beijo entre dois amantes? Mirem com cuidado, não haverá por trás dessa cena uma outra aludindo a mais leituras? Aqui anjos não ficam só com as vestes angelicais; um cachimbo pode ser mais que isso; uma seta fálica pode ver longe, uma mulher quem sabe? Aqui um homem em suspenso, em fuga? Ou um homem entre duas hipóteses? Nós mesmos oprimidos e temporários? Aqui uma interrogação de pé, uma exclamação deitada, abatida? A exclamação do irreal não se sustenta ou a dúvida do que enxergo está de saída, desistindo?
Vocês desistirão?

Caetano Oliveira
Médico Psiquiatra

Thursday, January 11, 2007



Sombra
acrílico s/ tela
200x200



Luz
acrílico s/ tela
200x200






Perfil
madeira/ferro
175x142

O Anjo
concreto
82x60x33



Olhar
madeira/ferro
135x120



O Beijo
concreto
70x56x27

Wednesday, December 06, 2006

Realidade Irreal?


Esta exposição leva o público a entrar em contato com uma caverna/com o interior/com sua sombra, dialogando com o “Mito da Caverna” de Platão, sua metáfora para descrever a situação geral em que se encontra a humanidade: condenados à ver sombras e tomá-las como verdadeiras. Propondo ao público o prazer de filosofar, de exercitar a reflexão, de discernir entre o que é real e o que é sombra e o irreal e o que não é sombra; através de obras de diferentes materiais, tais como, esculturas em concreto, madeira e ferro, telas, vídeo instalação, instalação interativa e projeções das sombras destas obras de acordo com a leitura dos artistas, provocando uma nova forma de pensar e ver a própria sombra.


Realidade ?
Irreal !


Estamos questionando a realidade e afirmando o irreal.
O irreal é absorvido sem muito questionamento quando uma maioria afirma que este é real.
O irreal é criado pela nossa mente, pelos nossos medos, pela cultura, pelo tempo e é afirmado como real.
Como saber a diferença? ! ?


A CAVERNA

Ao entrar na caverna vamo-nos deparando com nossas sombras, ao mesmo tempo que em que a luminosidade vai diminuindo...
O que para muitos pode ser apenas o corredor de acesso para a exposição, para outros pode ser o acesso para o seu “eu interior”, buscando sua real ou irreal forma de ser.


SOMBRA
Nesta tela estão representadas as sombras daqueles que estão presos em sua caverna.


O BEIJO
Escultura em concreto, com detalhes em ferro.
Os tons escuros, que representam o peso de um relacionamento e das escolhas, assim como a leveza do material indica a leveza do sentimento que os envolve.
É uma peça forte, porém frágil.
Expressões tensas, num momento de êxtase.
É a imagem de um homem e uma mulher muito próximos, unidos por um sentimento mútuo.
Sua sombra é a rainha do jogo de xadrez.
A sombra representa a forma como cada um vai fazer para manter este relacionamento, esta união representada pelo coração, as estratégias traçadas no dia-a-dia.
Assim como eles podem estar tentando se reconhecer no olhar do outro, olhando o outro através do coração, não só pelo que está aparente e conseguir conhecer um pouco mais a outra pessoa e se reconhecendo nesta, se conhecendo um pouco mais.


O ANJO

Escultura de um anjo em concreto, asas em ferro e madeira. Menino, ingênuo, bondoso, tranqüilo, tocando sua harpa.
Sua sombra é o seu oposto, perverso, malvado, astuto, revolto.
Elas se completam, a imagem e sua sombra, assim como nós temos estas duas imagens dentro de nós, onde somos ingênuos, assim como somos perversos.
Este anjo tem suas formas fortes, não sendo frágil, tão delicado, porque ele tem a mesma força que a sua sombra. E nada mais são do que máscaras, sendo utilizadas a imagem ou a sombra conforme a necessidade e interesse.
Às vezes a sombra é acionada pelo inconsciente em função de um o fator externo com o qual não conseguimos lidar. Acionado-a, até, como forma de defesa.


PERFIL
Escultura em madeira e ferro que traz a imagem de um perfil masculino, fumando seu cachimbo, pensativo.
Sua sombra traz a imagem de uma mulher sentada, pensativa.
Ele estaria no pensamento dela, ela seria o pensamento dele? Qual a relação entre este homem e esta mulher? Entre seu cachimbo e sua sombra?
Este homem aposta na sua imagem, é prepotente e acredita que pode muito.
A mulher à sombra, projeta a sua própria sombra, ela se basta e é suficiente para lidar sozinha com diversas situações, principalmente em um relacionamento.
Quem é o sexo frágil?
Como cada um sustenta sua estrutura emocional?


OLHAR
Escultura em madeira e ferro.
É um olhar que aponta para algo distante.
Um olhar masculino referente a imagem da mulher, uma conotação referente a sexualidade, ao desejo (seta)
Assim como, pode representar um olhar estranho, externo, referente a nossa própria pessoa, já com julgamento e condenação e um pré-conceito. A sombra é uma mulher sentada, olhar distante.
Mulher idealizada, que aguarda, de uma maneira tímida ou disfarçada este homem.
Assim como, nesta sombra, pode estar apenas aquilo que se quer mostrar, as aparências, a indiferença.
Tanto imagem, quanto sombra, são individualidades.


ESPELHO
Como me vejo? Vejo-me inteiro, vejo-me em partes ou simplesmente não me reconheço?
Esta é a proposta do biombo, que traz a representação universal do ser humano, o boneco de palitinhos, que todo adulto que afirma que não sabe desenhar faz, sim porque criança não desenha desta forma. Estas mesmas formas que compõem a representação do homem constroem outra figuração e estas se descompõem em outro momento.
Para me ver por inteiro, vou ter que reconhecer cada parte de mim, do contrário, vou me ver em partes.
Por outro lado, se hoje me encontro destruído, buscando o auto-conhecimento, vou visualizar a integralidade do meu ser.
Porém, a sombra sempre fará parte de mim, me mostrando desmembrado, em partes, sempre que eu voltar para o interior da caverna.


FUGA
Segundo o mito, a caverna tem só uma entrada e uma saída, e esta imagem estaria fugindo por algum outro lugar. Seria uma fuga da realidade, onde não admite estar presa a correntes e que há um mundo lá fora. Fugindo da vida.
Ou é uma escalada, ascensão e busca?


LUZ
Nesta tela estão representadas as pessoas que conseguiram se desprender dos grilhões da sua mente.

E o que uma obra tem a ver com a outra?

O questionamento, o real e o irreal
A dualidade
A individualidade
O ser humano

Entrando na caverna, entrando em contato com nossa sombra, com nosso interior, nossas prisões, vemos nossa sombra e a do outro.
Da sombra do homem, na sua forma rudimentar, temos a reconstrução de uma identidade e a fragmentação desta. Desta fragmentação, vemos a sombra da rainha, fazemos parte do jogo, vemos esta rainha transformar-se na sombra de uma mulher e sua própria sombra, e a sombra do mal, do nosso lado mais escuro, a sombra dos nossos pensamentos mais proibidos, que se transformam na passividade da mulher que se esconde no chapéu, tímida, calada. E vemos a representação de nossas imagens na luz, no processo de saída desta caverna, com uma bagagem maior, um maior conhecimento de si mesmo e do outro. Com um entendimento que somos únicos, mas não estamos sozinhos, que cada ato nosso, acarreta em algo no outro e que quando encontramos uma saída, podemos mostrar o caminho e conduzir outros conosco.



E o que isto tudo tem a ver com o mito da caverna?

A busca do auto-conhecimento
Ao conhecer-me melhor, saberia melhor da necessidade do outro
Saber lidar com as adversidades, conflitos se perceber o outro
Saber que a satisfação do meu desejo depende do desejo do outro
Saber do meu lado bom e mal
Saber sair e entrar no nosso interior (caverna) conforme perceber as limitações e o que ainda precisa ser buscado.


MITO DA CAVERNA

O Mito da Caverna narrado por Platão no livro VII do Republica é, talvez, uma das mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, em qualquer tempo, para descrever a situação geral em que se encontra a humanidade.
Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras a nossa frente e tomá-las como verdadeiras.


A Condição Humana

Platão viu a maioria da humanidade condenada a uma infeliz condição. Imaginou todos presos desde a infância no fundo de uma caverna, imobilizados, obrigados pelas correntes que os atavam a olharem sempre a parede em frente.
O que veriam então? Supondo a seguir que existissem algumas pessoas, uns prisioneiros, carregando para lá para cá, sobre suas cabeças, estatuetas de homens, de animais, vasos, bacias e outros vasilhames, por detrás do muro onde os demais estavam encadeados, havendo ainda uma escassa iluminação vindo do fundo do subterrâneo, disse que os habitantes daquele triste lugar só poderiam enxergar o bruxuleio das sombras daqueles objetos, surgindo e se desfazendo diante deles.
Era assim que viviam os homens, concluiu ele. Acreditavam que as imagens fantasmagóricas que apareciam aos seus olhos eram verdadeiras, tomando o espectro pela realidade. A sua existência era inteiramente dominada pela ignorância.
Se por um acaso, alguém resolvesse libertar um daqueles pobres diabos da sua pesarosa ignorância e o levasse, ainda que arrastado, para longe daquela caverna, o que poderia então suceder-lhe? Num primeiro momento, chegando do lado de fora, ele nada enxergaria, ofuscado pela extrema luminosidade do exuberante Hélio, o Sol, que tudo pode, que tudo provê e vê. Mas, depois, aclimatado, ele iria desvendando aos poucos, como se fosse alguém que lentamente recuperasse a visão, as manchas, as imagens, e, finalmente, uma infinidade outra de objetos maravilhosos que o cercavam. Assim, ainda estupefato, ele se depararia com a existência de um outro mundo, totalmente oposto ao do subterrâneo em que fora criado. O universo da ciência e o do conhecimento se escancarava perante ele, podendo então vislumbrar e embevecer-se com o mundo das formas perfeitas.
Com essa metáfora, Platão quis mostrar muitas coisas. Uma delas é que é sempre doloroso chegar-se ao conhecimento, tendo-se que percorrer caminhos bem definidos para alcançá-lo, pois romper com a inércia da ignorância requer sacrifícios. A primeira etapa a ser atingida é a da opinião, quando o indivíduo que ergueu-se das profundezas da caverna tem o seu primeiro contanto com as novas e imprecisas imagens exteriores. Nesse primeiro instante, ele não as consegue captar na totalidade, vendo apenas algo impressionista flutuar a sua
frente. No momento seguinte, porém, persistindo em seu olhar inquisidor, ele finalmente poderá ver o objeto na sua integralidade, com os seus perfis bem definidos. Ai então ele atingirá o conhecimento. Essa busca não se limita a descobrir a verdade dos objetos, mas algo bem mais superior: chegar à contemplação das idéias morais que regem a sociedade - o bem, o belo e a justiça.

Há pois dois mundos. O visível é aquele em que a maioria da humanidade está presa, condicionada pelo lusco-fusco da caverna, crendo, iludida que as sombras são a realidade. O outro mundo, o inteligível, é apanágio de alguns poucos. Os que conseguem superar a ignorância em que nasceram e, rompendo com os ferros que os prendiam ao subterrâneo, ergueram-se para a esfera da luz em busca das essências maiores do bem e do belo. O visível é o império dos sentidos, captado pelo olhar e dominado pela subjetividade; o inteligível é o reino da inteligência percebido pela razão. O primeiro é o território do homem comum preso às coisas do cotidiano, o outro, é a seara do homem sábio que volta-se para a objetividade, descortinando um universo diante de si.
Platão então pergunta, o que aconteceria se este ser que repentinamente descobriu as maravilhas do mundo dominado por Hélio, o fabuloso universo inteligível, descesse de volta à caverna? Como ele seria recebido?
Certamente que os que se encontram encadeados fariam mofa dele, colocando abertamente em dúvida a existência desse tal outro mundo que ele disse ter visitado. O recém-vindo certamente seria unanimemente hostilizado. Dessa forma, Platão traçou o desconforto do homem sábio quando é obrigado a conviver com os demais homens comuns. Não acreditam nele, não o levam a sério. Imaginam-no um excêntrico, um idiossincrático, um extravagante, quando não um rematado doido.

A caverna, diz Platão, é o mundo sensível onde vivemos. A réstia de luz que projeta as sombras na parede é um reflexo da luz verdadeira (as idéias) sobre o mundo sensível. Somos os prisioneiros. As sombras são as coisas sensíveis que tomamos pelas verdadeiras. Os grilhões são nossos preconceitos, nossa confiança em nossos sentidos e opiniões. O instrumento que quebra os grilhões e faz a escalado do muro é a dialética. O prisioneiro curioso que escapa é o filósofo. A luz que ele vê é a luz plena do Ser, isto é, o Bem, que ilumina o mundo inteligível como o Sol ilumina o mundo sensível. O retorno à caverna é o diálogo filosófico.

Thursday, November 09, 2006



Contato com os artistas:
realidadeirreal@hotmail.com
Ângela Garahy: 54.8131.5661
angelagarahy@hotmail.com
Homero Ribeiro:54.91036065
homeroarts@hotmail.com

Fotos da exposição:
www.realidadeirreal-fotos.blogspot.com



Daniela Xu/Pioneiro


Fotos : Gelson Aimi
www.aimifotografias.com.br